Como um adolescente dos EUA se torna atleta

Como um adolescente dos EUA se torna atleta? Que fatores permitem o jovem seguir praticando esportes após a infância? Este post pertence à série “Guia do Esporte Profissional nos EUA”. O objetivo deste especial é mostrar como o país produz tanto material humano para muitas modalidades, suprindo diversos campeonatos pelo mundo. Neste capítulo veremos como a prática esportiva e a competição entram na rotina dos jovens norte-americanos.

Leia mais: Como uma criança dos EUA pode virar atleta


Parte 2 – A criação de esportistas

Depois de passar quatro anos na middle school (equivalente ao ensino fundamental aqui no Brasil), o adolescente dos EUA ingressa no high school, com idade entre 13 e 14 anos. Assim como no nível escolar anterior, às aulas começam geralmente às 8h e terminam às 15h. Após este período, diversas atividades complementares podem ser feitas pelos estudantes. Entre as opções estão os esportes.

Decidem por participar, geralmente, àqueles que já praticaram alguma coisa no middle school. Mas há espaço também para os que talvez nunca chegaram próximos às modalidades. Isso, claro, quando falamos de high schools de municípios de médio a pequeno porte. Muita gente já deve ter ouvido falar que o Michael Jordan foi rejeitado na peneira para seu time de basquete do colégio, certo? Bem, a história não é bem essa. E você vai entender o que eu quero dizer mais pra frente.

Estrutura física

Exemplo de High school que estimula a ideia de um adolescente dos EUA se torna atleta.
High School localizada em uma cidade no noroeste do estado de New York, com mais de 12 mil habitantes. Escola possuí campo de futebol americano (e futebol), pista de atletismo, dois campos de beisebol, um de softbol, seis quadras de tênis, ginásio (interno), piscina para natação e outra para saltos ornamentais (interno). No subsolo, ao lado do campo, diversos vestiários e academia.

De forma geral, as escolas norte-americanas possuem boas estruturas esportivas. Como na imagem acima, é muito comum ver cidades de até 20 mil habitantes com uma única high school, tendo ao menos o campo, ginásio e  piscina. E é claro que existem variações de organização dos distritos escolares. Em certos lugares existe uma Central School, que reúne middle e high (ou seja, as duas escolas estão no mesmo lugar), facilitando a concentração de estrutura esportiva, como no print abaixo.

Exemplo de outra High school que estimula a ideia de um adolescente dos EUA se torna atleta.
Central School localizada em cidade vizinha a da foto acima. População de pouco mais de 11 mil habitantes. Por ser Central, reúne middle e high school no mesmo local. Também possuí campo de futebol americano (e futebol), dois campos de beisebol, um de softbol, oito quadras de tênis, ginásio (interno) e piscina (interno).

Importante frisar que não é como se esse pequeno município tivesse outros campos, parques e quadras espalhados pela cidade. Em alguns casos, as estruturas na high school são as únicas da cidade. É corriqueiro que os espaços ao ar livre estejam abertos para o uso da comunidade durante às noites ou aos finais de semana. Com essa facilidade de acesso aos estudantes (é só sair da aula e já atravessar o pátio para o treino), não surpreende uma grande adesão em diversos desportos e equipes.

Organização

Conforme abordado no primeiro capítulo do Guia, no high school os treinadores seguem sendo professores (de educação física ou não), outros funcionários da escola, pais ou ex-atletas egressos da instituição. Assim como nas middle schools, eles precisam passar por certificações e treinamentos para poderem exercer a função. Até porque, como mencionado há pouco, não é incomum que alguém que nunca jogou tênis, por exemplo, decida aprender o esporte nesta fase da vida. E aí, caberá ao técnico ensinar novatos e os mais experientes, com o método apropriado.

“Tá, beleza, mas e o Michael Jordan?” Se você leu o link, já sabe que ele não passou para o time varsity da sua escola, permanecendo mais um ano no junior varsity. Varsity e junior varsity? Simples. Traduza para categoria sub-18 e sub-16, respectivamente. Ou seja, dentro do departamento esportivo, há uma divisão de idades, entre os dois primeiros anos (freshman e sophomore) e os dois últimos (junior e senior). Imagina um garoto de 13 anos contra um de 17? Na maioria das vezes não dá certo.

A divisão possibilita um maior equilibro, melhor aprendizado e menor desgaste aos jovens atletas. Ainda que o vídeo acima indique o contrário, geralmente os JV (junior varsity) não disputam playoffs, já que viajam mais aos locais próximos. Os varsity tem um cronograma de disputa, podendo chegar ao título estadual, o que ainda veremos neste texto.

Outra questão é que esta divisão etária não é restrita. Jordan tentou entrar no “time dos maiores” e não passou. Foi jogar no JV. Este movimento é bem comum de acontecer. Crianças com mais habilidade (e talvez maiores que a média da sua idade) indo jogar na categoria acima. Não é incomum, também, ver atletas do middle school já participando do JV.

Calendário

Se voltarmos a olhar esta pesquisa sobre a participação esportiva entre 2015-2016, há uma lista grande de modalidades. Muitas! Claro que nem todos os estados e instituições adotam todas as opções, mas a média é superior a 10 esportes por escola. Aquela high school da primeira foto, da cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, oferece só na temporada de primavera seis modalidades. Como isso é possível? Não falta espaço? Bem, organizando direitinho, todo mundo joga…

Calendário letivo de esportes do sistema norte-americano. A organização criar jovens multi-esportistas e nos mostra como um adolescente dos EUA se torna atleta.
Arte por Thomé Granemann

No exemplo acima, foram utilizados poucos esportes para facilitar o entendimento. O importante é perceber como há uma repartição de modalidades de acordo com as temporadas: fall (outono), winter (inverno) e spring (primavera). O objetivo é otimizar a estrutura ou, ao menos, não encavalar treinos ou jogos. Um campo de grama do colégio pode ser usado pelo futebol americano, futebol, rugby ou hóquei sobre a grama, tanto masculino quanto feminino. Poucos colégios terão dois campos. Ao dividir em períodos, todos podem usar.

Cada estado dos EUA (ou região) decide qual é seu melhor calendário. Ai pesa tradição, clima, competitividade entre os esportes, estrutura. Na Flórida, o futebol é disputado na temporada de inverno, algo impossível para o nevado estado de New York durante o mesmo período.

A variação é tanta que o gráfico acima exemplifica a questão. Rugby, remo e hóquei sobre o gelo são esportes com enorme tradição em clubes ou times, não na escola. Mas na Califórnia, 41 instituições tem o union como modalidade enquanto que o remo vem crescendo também entre high schools. Já o hockey, que também cresce, tem um sistema que merece um post por si só. Há também as diferenças de gênero. O futebol americano é muito voltado aos meninos. Aí a ginástica e o hóquei sobre a grama se juntam ao vôlei como alternativa para as garotas.

Competição

Além da questão estrutural, o calendário esportivo também é dividido por conta das competições e do engajamento dos jovens. Era consenso que, ao ter curtos períodos dedicados a uma modalidade, os atletas sempre ficavam motivados (não ganhou o título no outono, há mais duas chances no resto do ano). Muitos estudos indicam também que, com variedade de movimentos e práticas, há um maior benefício para desenvolvimento físico e mecânico. Como também comentamos no primeiro capítulo, existe uma nova tendência de especialização das crianças, o que tem aumentado o número de lesões.

Beleza, mas e as competições? Não se irrite com a próxima frase: varia entre os estados. Para não ficar nessa generalização, vou escolher New York State para explicar como pode funcionar.

Estado de New York é dividido em 11 seções. A cidade de Nova Iorque não está incluída, tem sua própria associação. Mapa encontrado em www.nysphsaa.org e no texto Como um adolescente dos EUA se torna atleta.
Estado de New York é dividido em 11 seções. A cidade de Nova Iorque não está incluída, tem sua própria associação. Mapa encontrado em www.nysphsaa.org

A New York State Public High School Athletic Association (NYSPHSAA) divide o estado em 11 Sections (ou seções) que não incluem as instituições da cidade de Nova Iorque – tão grande por si só, que tem uma associação exclusiva. Como há muitas escolas, de tamanhos e alunos variados, foi criada uma classificação para nivelar os times. O cálculo tem base no número de alunos, somando da nona até a décima primeira série (ou seja, apenas os seniors de fora). Teoricamente, é mais provável um time de uma high school com mais de 1000 alunos ser melhor do que uma com menos de 170. Há mais opções de montagem de equipe, inclusive com peneiras.

As high schools lá dos prints aéreos, localizadas no noroeste do estado, pertencem a Section VI, por exemplo. Dentro desta seção, há seis ligas, divididas por regiões e tamanhos. A cidade de Buffalo tem tantos times que possuí uma liga própria, com 16 escolas. Vamos nos focar na CCAA, que reúne 29 escolas dos condados de Chautauqua e Cattaraugus.

Levando em conta as classes (AA, A, B, C e D), foram criadas divisões internas. E como há uma separação regional (no caso, dois condados vizinhos) ninguém viaja mais de 1h30 para jogar. Dê uma olhada nesta tabela para ficar mais claro.

Mas e os títulos?

Lembra da classificação por tamanho de escola? Cada uma delas tem um campeão. O caminho não é fácil. No caso dos colégios da Chautauqua-Cattaraugus Athletic Association (CCAA), é necessário se classificar bem para participar dos playoffs da seção (contra times das demais ligas). Os campeões representarão a Section VI no torneio da NYSPHSAA.

Por fim, para finalmente ser campeão estadual, reúnem-se os campeões de todas as associações. Lembra que a cidade de Nova Iorque tem uma federação de high school públicas só sua (PSAL)? Ela é uma das quatro que enviará representantes, junto à associação das escolas públicas do resto do estado (NYSPHSAA, que comentamos ao longo do texto), a associação das escolas católicas (Catholic High School Athletic Association – NYCHSAA) e da associação das escolas independentes ou privadas (New York State Association of Independent Schools – NYSAIS).

Caminho das competições nos mostra como um adolescente dos EUA se torna atleta. Com alta competitivada, os jovens jogadores se preparam mentalmente para a vida profissional.
Arte por Thomé Granemann. Exemplo serve para outras modalidades coletivas, como futebol, vôlei, futebol americano ou beisebol/softbol.

Conclusões

Com tanto esforço, organização e possibilidades, o número de praticantes nesta faixa etária é enorme. Mas há muito gasto com a manutenção destas atividades, também. Tanto que se fortalece, cada vez mais, a ideia de acabar com a competição esportiva no high school. Fica a dica para este artigo completo do The Atlantic sobre o assunto.

Matéria atualizada às 19h01

Foto de destaque: maxpixel.freegreatpicture.com / Creative Commons Zero – CC0

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