Champions League, seleção brasileira e o mito da geração ruim

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Nesta terça-feira começa a fase de grupos da UEFA Champions League, principal campeonato de clubes do mundo com a maioria dos melhores jogadores também. Messi, Cristiano Ronaldo, Luís Suárez, Ibrahimovic, Bale, Pogba, Müller, Griezmann e muitos outros. Entre os brasileiros, Neymar é o principal destaque entre os 67 que vão disputar a competição (eram 65 de 2015, 77 de 2014, 62 de 2013, 88 de 2012 e 69 em 2011). Os representantes vão dos favoritos Barcelona, Real Madrid e Bayern ao modesto Ludogorets, da Bulgária. Os thiagos (Motta e Alcántara), naturalizados, não entram na lista.

Os números mostram que já tivemos mais moral, mas os brasileiros continuam com certo prestígio entre os europeus, mesmo com os constantes fracassos da seleção principal. Tanto que alguns dos clubes mais tradicionais do mundo ainda vêm atrás dos nossos atletas, como os casos de Gabriel Jesus e Gabriel Barbosa. Outros se transferem para clubes menores e, no velho continente mesmo, mostram serviço até irem para clubes tradicionais como foi com Roberto Firmino (que não está na Champions), William e tantos outros.

O fato é que ainda estamos entre os maiores exportadores do futebol e, apesar das constantes dentadas do futebol chinês, nossos atletas ainda têm muito mercado e a cada contratação dessa, me vem à cabeça o discurso dos pessimistas quando o assunto é seleção brasileira: o mito da geração ruim.

A parte verdadeira do mito

Ao chamar de mito, fica claro que não concordo com a avaliação, mas não quer dizer que não reconheça um fundo de verdade nisso. O futebol brasileiro tem sim um problema crônico de formação de jogadores. Já passou o tempo das peneiras – embora muitos times ainda recorram a isso – e as categorias de base não conseguiram se adaptar a uma nova forma de pensar futebol.

Uma matéria da Fox Sports de 2014 procurou ouvir os clubes sobre o assunto. Os que responderam, falaram sobre a filosofia que implantam na sua categoria de base e que priorizam jogadores habilidosos, mas, na hora de avaliar a falta de craques, os motivos são vários. Falam que as bases – sempre dos outros, nunca as suas – se preocupam em revelar jogadores com o estilo europeu para exportar, que os empresários atrapalham a formação vendendo muito cedo, que os times têm de escolher entre formar ou lucrar.

De fato não conseguimos revelar tantos bons jogadores como antigamente. O modelo das bases é anacrônico, os jogadores vão embora antes de se tornarem ídolos e os poucos que se tornam, logo são contratados a peso de ouro. Isso enfraquece nosso campeonato, mas a seleção continua com boas opções, só que não jogam mais por aqui.

Brasil de 2006 (em ordem). Dida, Lúcio, Juan, Adriano, Emerson e Cafu. Ronaldinho, Roberto Carlos, Kaká, Zé Roberto e Ronaldo.

Qual o seu parâmetro?

Há quem vá falar “isso não quer dizer nada, várias gerações boas não tinham atletas que jogavam no Brasil”. É verdade. A seleção de 2006, por exemplo, tinha apenas três atletas do elenco atuando no futebol brasileiro (Rogério Ceni, Mineiro e Ricardinho). Até escorreu uma lágrima ao ver a escalação daquele time (foto à direita). Ainda tinha Robinho, Juninho Pernambucano, Gilberto Silva e Fred no banco. Mas insisto com a ideia de que a geração atual é boa, por isso pergunto: qual o seu parâmetro?

Se compararmos a atual com as seleções dos anos 1990 e 2000, sim, a nossa fica abaixo. Mas aí é onde eu vejo o erro. Comparar a atual seleção com a de 2006 dá saudades, mas sem contextualizarmos a época, teremos um erro de avaliação com uma pitada de saudosismo – o que não é algo necessariamente ruim.

Quer um exemplo?! Veja as escalações abaixo e compare a Holanda de 2002 com a de 2010. Qual você acha a melhor?

Pos. Holanda (2002) Holanda (2010)
GK Edwin van der Sar M. Stekelenburg
LAD Michael Reiziger G. van der Wiel
ZAG Jaap Stam John Heitinga
ZAG Frank de Boer Joris Mathijsen
LAE Arthur Numan G. van Bronckhorst
VOL Mark van Bommel Mark van Bommel
VOL Edgar Davids Nigel de Jong
MEI Clarence Seedorf Wesley Sneijder
ATA Marc Overmars Dirk Kuyt
ATA Patric Kluivert Arjen Robben
ATA Ruud van Nilsterooy Robin van Persie
TEC Dick Advocaat Bert van Marwijk

Difícil, né? Eu demorei para escolher a minha. Acontece que a de 2010 foi vice-campeã da Copa da África do Sul (perdeu a final na prorrogação) enquanto a de 2002 nem foi para a Copa da Coreia e Japão. E esse exemplo daria certo com várias outras seleções.

O que eu quero mostrar é que tudo depende da régua com que se mede. Antigamente o número de craques era maior, porque as individualidades apareciam muito mais. O futebol mudou bastante de lá para cá, o que explica a hegemonia de Messi e Cristiano Ronaldo no cenário mundial. Não é só no Brasil que falta craque e isso mostra como o futebol mudou, principalmente por culpa de dois caras.

A revolução foi televisionada, mas a CBF não viu

Muitos não gostam do Guardiola. Muitos mais não gostam do Mourinho. Mas não dá para deixar de lado a influência dos dois no futebol mundial.

Mourinho já era super reconhecido quando Guardiola surgiu em 2008. Após o título do Porto na UCL de 2004, o português mudou o Chelsea de patamar e já estava na Inter de Milão quando o espanhol surgiu como técnico. Logo, Guardiola tomou conta do pedaço, implantou o tiki-taka e venceu a primeira Champions que disputou, em 2009. Na Inter, Mourinho montou uma forte defesa e foi o primeiro a mostrar que aquele Barcelona não era invencível. Quando foi para o Real Madrid, as batalhas táticas entre os dois mudaram o futebol como poucas vezes se viu.

Posse de bola, compactação na defesa, falso 9, saída rápida pelas pontas. Foi muita novidade, mas o mundo se adaptou a isso. Com o tempo, outros técnicos ganharam terreno, viraram popstars e o coletivo passou a se destacar mais que o individual.

De lá para cá, os craques não parecem tão craques quanto antigamente. Com menos espaço e partidas mais rápidas, o um contra um é raridade no futebol atual e jogar sem a bola é tão importante quanto com ela. Menos craques no mundo, menos craques no Brasil.

Ainda temos bons jogadores, mas o futebol brasileiro não conseguiu entender a mudança, como escreveu André Rocha em seus tempos de ESPN. Nem em seus clubes, nem em sua seleção. Dunga, Mano, Felipão, Dunga. Quase todos percebiam que andar em círculos não adiantava, só os dirigentes da CBF que não, até o fracasso da Copa América Centenário, o terceiro em três anos. Atenderam ao povo e chamaram Tite.

Calma, torcedor, calma

Foram apenas dois jogos do novo técnico da seleção, mas a mudança é tanta que o país inteiro se encheu de otimismo. Em 10 anos como técnico, seu antecessor trabalhou durante 6 anos e 8 meses exercendo a profissão. Desses, apenas 8 meses em clubes. Ou seja, foi inventado como técnico. Comparado a Dunga, é claro que Tite faria a diferença rapidamente, mas temos que ter paciência.

O mito da geração ruim era tão frágil que depois das boas vitórias contra Equador e Colômbia. “O campeão voltou” Calma. Nossa geração é boa, mas não é a melhor. Nosso técnico é bom, mas não é o melhor.

Mesmo assim, o ex-corintiano pode dar jeito na seleção, afinal, tem peças e conhecimento para isso. Porém, não esperem que ele vá arrumar o nosso futebol. A CBF continua com dirigentes que afundaram nossa seleção e um presidente que nem viaja com a equipe.

Difícil esperar mudanças internas, mesmo se chegarmos ao hexa em 2018. Se assim for, méritos de Tite, de sua comissão técnica e dos jogadores. Única e somente deles. Ainda vivemos dos talentos que surgem, não dos que são cultivados. É do esforço próprio que continuamos tendo bons jogadores. Por isso nossos jogadores saem, mas nossos dirigentes ficam.

Tite comanda o Brasil contra a Colômbia
Tite comanda o Brasil na vitória contra a Colômbia, em Manaus (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

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