Do bloqueio ao ataque: a função do central no vôlei

Que no vôlei todo mundo é alto, a gente sabe. Os mais baixinhos são os líberos e ainda assim eles normalmente estão acima da média. Os maiores, claro, são os centrais, ou meios-de-rede. Na maioria das vezes superando os dois metros de altura, esses caras são especialistas nos ataques rápidos pelo meio e são paredões no bloqueio. Essas funções podem parecer bem generalizadas, afinal ponteiros e opostos também fazem tudo isso. Então por que o central é uma função específica do vôlei?

São eles que fortalecem as pontas no bloqueio, se especializando em todos os fundamentos dessa função. É deles a bola de segurança de quase todo levantador, que aciona o meio-de-rede para uma garantia de ponto. Quando passam no saque, normalmente buscam os serviços forçados, recurso indispensável para um time campeão. E são os centrais o nosso primeiro tema de uma série de análises sobre as posições do vôlei. Então vamos avaliar os gigantes!

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O ataque

O central se chama assim, claro, porque ele fica no meio da rede. Esse posicionamento se dá justamente por serem eles os mais altos e, assim, poderem se deslocar para os dois lados da rede e reforçar o bloqueio, mas é também em função do ataque que os gigantões ficam no centro. Tradicionalmente, os caras mais altos não possuíam a maior impulsão de salto, mas ainda sim tinham uma mão pesada, então a melhor solução era deixar eles bem perto do levantador. Um simples salto vertical, o levantamento chegando rápido e BOOM! Bola no chão. Atualmente eles não são assim tão mais altos que a maioria, alguns até passaram de central a oposto (caso do russo Dmitriy Muserskiy), mas ainda assim a função segue a mesma.

O central ocupa a famosa função de “bola de segurança”: o menor tempo de viagem da bola das mãos do levantador para o corte do atacante faz essa opção ser quase sempre fatal. Só é possível parar um meio-de-rede de duas maneiras: ou o outro meio “queima” o bloqueio nele, pulando antes mesmo do levantamento acontecer; ou a defesa pega o ataque.

Já fica claro que defender os foguetes desses caras é muito difícil, pois eles são quase sempre os mais fortes do time. Ainda mais que, por baterem bem próximos da rede, eles costumam cravar a bola para baixo, dificultando a marcação do adversário, que se posiciona no fundo da quadra. Caso a defesa chegue, raramente o passe será “A”, um passe perfeito para o levantador, causando uma dificuldade tremenda de virar a bola.

A sintonia central-levantador é essencial para o funcionamento do ataque de qualquer equipe. A bola deste tipo de ataque tem que ser levantada na pinta, com muita precisão, pois o central já está no meio do movimento de ataque quando ela chega. Caso a conexão demore muito, o central adversário terá tempo para pular no bloqueio. Velocidade é essencial, e por isso hoje em dia é tão comum a famosa “chutada no meio”.

Nossa seleção feminina, nas olimpíadas Rio 2016, sofreu justamente da falta de presença de meio-de-rede. A levantadora Dani Lins pouco utilizou nossas centrais, Thaísa e Fabi, fazendo com que a central adversária, a chinesa Xu Yunli, cobrisse bem as laterais da rede e anulasse os ataques de nossas ponteiras e oposta.

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Por outro lado, a seleção masculina tem, há uns 5 anos, a dupla Bruninho-Lucão fazendo um ótimo trabalho de chamar a atenção do bloqueio adversário. Na Rio 2016, tanto com Lucão como com Maurício, Bruninho soube usar a bola de meio para prender o central adversário no meio da rede. Sempre que ele passava a se deslocar mais para os lados, era cravada no meio. Assim, Wallace e Lucarelli fizeram ótima partida, sempre batendo no bloqueio simples ou no duplo quebrado, com o central adversário chegando atrasado na ponta.

Bruninho na chutada para Lucão via GIPHY

Desde os tempos de URSS com Zaytsev-Sarin, a bola chutada é a primeira opção no meio-de-rede. Nesse ataque, o levantador não faz o arco no levantamento da bola, mas ao invés disso passa a bola em uma linha direta até a mão do central. Sem o arco, fica difícil o atacante ajeitar a batida. A chutada tem que sempre ser perfeitamente precisa — qualquer centímetro mais pra lá ou pra cá pode levar ao erro.

Zaytsev e a chutada para Sarin. via GIPHY

Assim, escolher o ataque pelo meio quando o levantador tem que buscar a bola longe da rede é muito difícil. Estando do lado do central, é tranquilo chutar a bola, agora lá antes da linha dos três exige muito talento e entrosamento. Logo, torna-se necessário o passe A para que a bola de meio aconteça.

A melhor maneira de neutralizar um ataque do central é o bloqueio. E ele realmente funciona. O ataque pelo meio da rede é muito rápido, e caso o central adversário esteja ligado, pode se aproveitar desta velocidade para surpreender o atacante e devolver a bola no pé. O problema é que, para fazer isso sempre, o central deixa de cobrir as pontas, já que ou ele pula no meio, ou corre para um dos lados da rede para fechar um bloqueio duplo. Assim, esta opção de centralização ofensiva é fundamental para os outros atacantes também, já que um central que esteja bem no jogo pode liberar espaços também para os outros jogadores — pois sempre vai ter o meio-de-rede adversário em cima dele esperando seu ataque.

Uma outra opção ofensiva para o central, principalmente para quando o passe vem quebrado, é a “China”. Concebida, quem diria, pelas chinesas lá nos primórdios do vôlei, essa jogada consiste na central se deslocar por trás da levantadora na hora do ataque, aparecendo na saída de rede para atacar (como se fosse a oposta). Assim como na chutada, esse ataque exige muita sintonia e é uma arma poderosa contra centrais adversárias mais lentas. Caso a meio-de-rede adversária demore para acompanhar a movimentação da China, a central poderá atacar só com o bloqueio simples da ponta, que deve chegar quebrado (quase sempre chega). Isso dá uma ótima chance de virada e conquista do ponto. Se a levantadora optar, ainda, poderá jogar a bola para a ponta contrária ao deslocamento da central, deixando uma atacante na certeza do mano a mano.

Fabi na “China Atrás”. via GIPHY

Por ser normalmente uma bola mais lenta, o vôlei masculino costuma utilizar pouco a China atrás. Recentemente, caras como Lucão, Maurício e até mesmo Isaac mostraram esse ataque na seleção e na Superliga. O contrário também vale, com a chutada sendo arma não muito recorrente no feminino, apesar de atualmente Thaísa ser especialista neste ataque.

O bloqueio

O central é o cara que corre de um lado para o outro, acompanhando a bola e montando o bloqueio duplo. A definição do posicionamento do bloqueio, para onde o meio-de-rede deve se deslocar, já é realizada antes do ponto. Sabe quando as mãozinhas dos jogadores de rede estão nas costas, antes do saque, e eles fazem vários sinais? Ali se decide se é pra fechar a paralela, a cruzada, cobrir a entrada ou saída de rede.

Cabe então ao meio reforçar as pontas onde estão os jogadores mais importantes. Mas, como já foi dito por aqui, ele não pode deixar o outro central livre, não é? A saída desse jogador do centro da rede pode abrir também a bola de segunda, um ataque pelo meio com um jogador que está no fundo da quadra. Por isso que não adianta só ser alto para ser um bom bloqueador, tem que ser inteligente e ter uma boa interpretação do que está ao seu redor.

Gustavo Endres, um dos melhores bloqueios que a seleção brasileira já teve, não era tão alto assim (2.03m), mas possuía um movimento lateral incrível. Sempre posicionado para cobrir a chutada no meio ou a bola de segunda, Gustavão fechava o duplo na ponta muito rápido –graças também à sua ótima leitura do ataque adversário — devido à sua disposição física e velocidade de corrida lateral. Jucy é outro fenômeno de bloqueio no vôlei feminino, fazendo bem a cobertura do meio e marcando presença nas pontas sempre, mesmo chegando quebrada.

A maior dificuldade de um levantador é enfrentar um central que lê bem o ataque e acompanha a bola sempre. Além de Gustavão, outro nome de destaque como paredão foi Giani, da Geração de Fenômenos da Itália da década de 1990. Como forma de parar essas máquinas, algumas equipes deslocam o central mais para um lado ou para o outro da rede no ataque, para forçar o bloqueio adversário a sempre estar mais distante de uma ponta onde, por exemplo, ataque o oposto da equipe. Bernardinho fez isso nas olimpíadas com Wallace, colocando Lucão sempre no canto inverso a ele, deixando assim nosso oposto sempre no bloqueio simples.

O saque

Falar sobre saque dá um texto a parte, devido à importância que este fundamento tem no vôlei. Mas, para os centrais, o serviço costuma ser uma forma de forçar o jogo. Por terem, em sua maioria, mais de dois metros de altura, esses jogadores batem na bola de uma altura absurda, o que faz com que o saque viagem deles seja normalmente muito forte. Dentro da rotação de saques, então, eles são os caras que normalmente estão livres para forçar, sem medo de serem felizes.

Porém, alguns meios-de-rede preferem não arriscar, trabalhar com um serviço mais colocado e com efeito. Eles já são acostumados a bater na bola das mais diversas formas, já que nem sempre o levantamento vem 100% na hora do ataque. Por isso, quando esses caras vão colocar a bola em jogo, conseguem variar o efeito e complicar a defesa adversária pela imprevisibilidade. Quem acompanha vôlei vai lembrar do característico saque de Rodrigão, sempre chapado e flutuante, ou mais recentemente o serviço de Maurício. Esses caras, independente do estilo de saque, costumam ter boas passagens pelo serviço e protagonizar vantagens agradáveis (ou viradas incríveis).

Para mais que um jogador de ataque na rede, o central é fundamental para a estratégia defensiva do time, que depende do bloqueio para poder manter o ritmo de jogo. Sem um bom meio-de-rede, é muito difícil a equipe ter consistência defensiva e, consequentemente, tranquilidade no ataque. Presentes em quase todos os fundamentos do vôlei, os centrais são parte indispensável da engrenagem do time: com um bom saque, podem ter a chance do contra-ataque se amortecerem no bloqueio, virando a bola de segurança pelo meio-de-rede.

Foto destaque: Divulgação/CBV

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